sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sérgio Buarque de Holanda




Sérgio Buarque de Holanda nasceu em São Paulo a 11 de julho de 1902, filho de Cristóvão Buarque de Holanda e de Heloísa Buarque de Holanda.
Estudou no Ginásio S. Bento e na Escola Modelo Caetano de Campos, onde compôs a valsa "Vitória Régia", publicada na revista Tico-Tico dois anos depois, e onde foi aluno do Afonso de E. Taunay.

Em 1921, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro.
Participou do movimento Modernista de 22, tendo sido nomeado por Mário e Oswald de Andrade representante da revista Klaxon no Rio de Janeiro.
Em 1925, bacharelou-se em Direito pela Universidade do Brasil.

Em 1926, transferiu-se para Cacheiro do Itapemirim, no Espírito Santo, atendendo o convite para dirigir o jornal "O Progresso", também neste mesmo ano, fundou, juntamente com Prudente de Morais Neto, a revista "Estética".
Retornou ao Rio de Janeiro, em 1927, e passou a trabalhar na imprensa carioca como colunista do "Jornal do Brasil" e funcionário da Agência United Press.
Viajou para a Europa, em 1929, como correspondente dos Diários Associados e fixou residência em Berlim, onde entrou em contato com a obra de Max Weber e assistiu aos seminários de Friedrich Meinecke.

Passou a colaborar, em 1930, na revista "Brasilianische Rundschau" do Conselho do Comércio Brasileiro de Hamburgo. Em 1936, já de volta ao Brasil, ingressou na Universidade do Distrito Federal como professor-assistente de Henri Hauser na cadeira de história moderna e contemporânea e leciona literatura comparada como assistente do professor Trouchon.
Foi também em 1936 que Sérgio Buarque de Holanda lançou seu livro "Raízes do Brasil", considerado por muitos, um dos livros mais importantes já produzidos no Brasil.

Em 1939, quando do fechamento da Universidade do Distrito Federal, Sergio Buarque de Holanda foi convidado por Augusto Meyer a dirigir a seção de publicações do Instituto Nacional do Livro. A convite da seção de Relações Internacionais do Departamento de Estado, viajou, em 1941, para os Estados Unidos.

Três anos depois, em 1944, assumiu o cargo de diretor da Divisão de Consulta da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Em 1945, participou da fundação da Esquerda Democrática e viajou para São Paulo a fim de participar do Congresso de Escritores. Foi eleito presidente da seção do Distrito Federal da Associação Brasileira de Escritores.

Em 1946, transferiu-se para São Paulo, onde subistitui seu antigo professor Afonso de E. Taunay no cargo de diretor do Museu Paulista.

No ano seguinte, filiou-se ao Partido Socialista e assumiu a vaga de professor História Econômica do Brasil, na Escola de Sociologia e Política, em substituição a Roberto Simonsen.
Viajou a Paris para uma série de três conferências na Sorbonne, em 1949.

Em 1952, mudou-se com a família para Itália, onde permaneceu por dois anos como professor convidado junto à cadeira de Estudos Brasileiros da Universidade de Roma.

Em 1957, recebeu o prêmio Edgard Cavalheiro do Instituto Nacional do Livro pela publicação de Caminhos e Fronteiras. Conquistou em concurso publico feito em 1958, a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com a tese Visão do Paraíso - os motivos edênicos no descobrimento e na colonização do Brasil.

Foi o primeiro diretor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), eleito em 1962. De 1963 a 1967, viajou como professor-visitante para as universidades do Chile e dos Estados Unidos e participou de missões culturais pela Unesco no Peru e na Costa Rica.

Em 1969, requereu sua aposentaria do cargo de catedrático da USP em solidariedade aos colegas afastados de suas funções pelo AI-5. Recebeu o prêmio Governador do Estado, em 1967, na seção de literatura.

Em 1979, recebeu, como o intelectual do ano, o prêmio Juca Pato.

Foi membro-fundador do Partido dos Trabalhadores, em 1980.

Sérgio Buarque de Holanda morreu em São Paulo, a 24 de abril de 1982. Entre suas obras mais famosas estão: "Raízes do Brasil" (1936), "Cobra de Vidro" (1944), "Caminhos e Fronteiras" (1957) e "Visão do Paraíso" (1959). Sérgio Buarque de Holanda escreveu regulamente para a Folha entre 1950 e 1953.
Historiador e amante da literatura, entre os alemães que então estavam em moda, decidiu-se por Max Weber e por George Simmel, textos de quem ele privou diretamente quando da sua estada na Alemanha entre 1929-1930. Daí a preocupação dele, recorrendo à sociologia weberiana, em identificar entre os ocupantes do Novo Mundo os “tipos ideais” , cunhando então as figuras do semeador e do ladrilhador, para melhor distinguir a colonização lusitana da espanhola.
Ao contrário de Gilberto Freyre, que exaltara a adaptabilidade do português no trópico, Sérgio Buarque queixou-se, veemente, da má vontade deles para com as letras, para com a imprensa e a educação, deixando o Brasil colônia mergulhado por três séculos numa ignorância estratégica. Viu-os como simples semeadores que mal queriam sair do litoral, os “caranguejos” do Padre Antonil, feitores criando arraiais e vilarejos ao deus-dará, espremidos por latifúndios gigantescos, bem ao contrario do ladrilhador espanhol que , este sim, embrenhou-se no coração da América, ocupando-a com cidades planejadas, abrindo escolas, gráficas e universidades, desbugrando o Novo Mundo. Atribuiu a eles, aos lusos, este nefasto gosto nosso pelo palavreado sem freio, sonoro mas nem método, o cultivo da inteligência como ornamento, sem aplicação útil, a busca bocó pelo anel de grau, a “ equivaler a autênticos brasões de nobreza.” E, claro, o pavor à técnica e às artes mecânicas em geral, vistas sempre como atividades inferiores, indignas de um homem de bem. Para Sérgio Buarque, o momento crucial da historia social do Brasil dera-se com a Abolição.
Um rio moroso, mas que flui sempre



A partir de 1888, desencadeara-se uma revolução silenciosa rumo a um progresso material e moral, fazendo com que os demais acontecimentos políticos nacionais (tal como a Revolução de 1930, que ele, como paulista, não devotou simpatias), não passassem de tumultos e afobações inconseqüentes. Viu o Brasil, desde a Lei Áurea, movendo-se como um grande rio de planície, que, no seu fluir, arrasara a casa grande & senzala, deslocando a sociedade brasileira do mundo rural para o mundo urbano, arrastando em seu lento cataclismo o Império, apagando com isso os vestígios do nosso passado ibérico. Estava em formação algo novo, uma alquimia ainda pouco conhecida, talvez ilusoriamente americano, dominado pelas cidades, que, rompidas com a antiga ordem agrária, reclamavam agora sua soberania, a querem vida própria, a terem a primazia de tudo. Porém, o grande drama, persistente, ainda se impunha.
Como, inquietava-se Sérgio Buarque, implantar uma ordem e uma cultura européia num território tão vasto e tão estranho aos ditames da razão e do método? Pois, como ele assegurava, “somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”, tendo contra nós um outro clima e uma outra paisagem. E, além disso, descendíamos de dois países bem pouco europeus, Portugal e Espanha, que eram destacados amantes do personalismo, chegando as raias da anarquia, avessos à instituições solidárias, o que levava à frouxidão da estrutura social e à falta da hierarquia organizada. Desafio para colossos que, entretanto, repousa nos ombros estreitos de todos nós. Ao comentar o destino que previa para os integralistas, uma força política nos anos trinta, foi lapidar e profético ao dizer que eles, como qualquer outro partido que representava interesses ou de ideologia, se estiolariam, pois “a tradição brasileira nunca deixou funcionar os verdadeiros partidos de oposição”.

Vida

Sérgio Buarque de Holanda estudou em diversas escolas de São Paulo. Mudou-se, em 1921, para o Rio de Janeiro, matriculando-se na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, atual Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde obteve o bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais em 1925.
Ao longo da década de 1920, atuou como representante do movimento modernista paulista no Rio de Janeiro. Trabalhou então em diferentes órgãos de imprensa e, entre 1929 e 1930, foi correspondente dos Diários Associados em Berlim, onde também frequentou atividades acadêmicas, como as conferências do historiador Friedrich Meinecke.
De volta ao Brasil no começo dos anos 30, continuou a trabalhar como jornalista. Em 1936, obteve o cargo de professor assistente da Universidade do Distrito Federal. Neste mesmo ano, casou-se com Maria Amélia de Carvalho Cesário Alvim, com quem teria sete filhos: Sérgio, Álvaro, Maria do Carmo, Ana Maria, além dos músicos Cristina Buarque, Miúcha e Chico Buarque. Ainda em 1936, publicou o ensaio Raízes do Brasil, que foi seu primeiro trabalho de grande fôlego e, ainda hoje, é o seu escrito mais conhecido.
Em 1939, extinta a Universidade do Distrito Federal, passou a trabalhar na burocracia federal. Em 1941, passou uma longa temporada como visiting scholar em diversas universidades dos Estados Unidos.
Reuniu, no volume intitulado Cobra de Vidro, em 1944, uma série de artigos e ensaios que anteriormente publicara nos meios de imprensa. Publicou em 1945 e 1957, respectivamente, Monções e Caminhos e Fronteiras, que consistem em coletâneas de textos sobre a expansão oeste da colonização da América Portuguesa entre os séculos 17 e 18.
Em 1946, voltou a residir em São Paulo, para assumir a direção do Museu Paulista, - que ocuparia até 1956 - sucedendo então ao seu antigo professor escolar Afonso Taunay. Em 1948, passou a lecionar na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, na cátedra de História Econômica do Brasil, em substituição a Roberto Simonsen.
Viveu na Itália entre 1953 e 1955, onde esteve a cargo da cátedra de estudos brasileiros da Universidade de Roma. Em 1958, assumiu a cadeira de História da Civilização Brasileira, agora na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. O concurso para esta vaga motivou-o a escrever Visão do Paraíso, livro que publicou em 1959, no qual analisa aspectos do imaginário europeu à época da conquista do continente americano. Ainda em 1958, ingressou na Academia Paulista de Letras e recebeu o Prêmio Edgar Cavalheiro, do Instituto Nacional do Livro, por Caminhos e Fronteiras.
A partir de 1960, passou a coordenar o projeto da História Geral da Civilização Brasileira, para o qual contribuiu também com uma série de artigos. Em 1962, assumiu a presidência do recém-fundado Instituto de Estudos Brasileiros. Entre 1963 e 1967, foi professor convidado em universidades no Chile e nos Estados Unidos e participou de missões culturais da Unesco em Costa Rica e Peru. Em 1969, num protesto contra a aposentadoria compulsória de colegas da Universidade de São Paulo pelo então vigente regime militar, decidiu encerrar a sua carreira docente.
No contexto da História Geral da Civilização Brasileira, publicou, em 1972, Do Império à República, texto que a princípio fora concebido como um simples artigo para a coletânea, mas que, com o decurso da pesquisa, acabou por ser ampliado num volume independente. Trata-se de um trabalho de história política que aborda a crise do império brasileiro no final do século 19, explicando-a como resultante da corrosão do mecanismo fundamental de sustentação deste regime: o poder pessoal do imperador.
Permaneceu intelectualmente ativo até 1982, tendo ainda neste último decênio publicado diversos textos. De 1975 é o volume Vale do Paraíba - Velhas Fazendas e de 1979, a coletânea Tentativas de Mitologia. Nestes últimos anos, trabalhou também na reelaboração do texto de Do Império à República - que não chegou a concluir. Participou, em 1980, da cerimônia de fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), recebendo a terceira carteira de filiação do partido, após Mário Pedrosa e Antonio Candido.[2] Neste mesmo ano, recebeu tanto o Prêmio Juca Pato, da União Brasileira de Escritores, quanto o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.
Sérgio Buarque, o explicador do Brasil


Juntamente com Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, nascido em São Paulo em 11 de julho de 1902, foi um dos “explicadores do Brasil”, isto é, alguém que, por meio de um respeitável obra, procurou tornar o país mais inteligível aos próprios brasileiros. Seu interesse oscilou entre a literatura e a história, sempre abordadas pelo viés da sociologia, especialmente a da escola alemã, mais precisamente a de Max Weber. Hoje, Sérgio Buarque de Holanda, falecido em 1982, é considerado um dos mais eminente intelectuais brasileiros do século XX.
O pai do Chico



A cordialidade resultara paradoxalmente da escravidão
Sérgio Buarque de Holanda, saindo com a mulher e amigos nas noites de sábado no Rio de Janeiro, tinha um meio infalível de conseguir uma boa mesa num restaurante. Chegando-se ao maitre dizia: “Sou o pai do Chico!” Palavras mágicas que, testemunhou Raymundo Faoro, faziam com que de imediato providenciassem um lugar para o historiador e seus convivas. O próprio Sérgio Buarque, cujo centenário de nascimento comemora-se no dia 11 de julho, divertia-se com aquilo, comprovando assim a eficácia de uma das suas teses famosas: a da inata cordialidade do homem brasileiro.
Quando ele a defendeu, nos idos dos anos trinta ( é o 5º capitulo do Raízes do Brasil, publicado em 1936), desabaram críticas. Para os integralistas, os fascistas brasileiros de então, a concepção dele era desvirilizante, pois eles preferiam um varonil bandeirante como característica nacional. Alguém como Domingos Jorge Velho ou Pai Pirá, descritos na Marcha para o Oeste de Cassiano Ricardo, paulista como Sérgio, editado em 1940, uns fura-matos que, com trabuco na mão, facão na cintura e muita crueldade, enfiando-se pelos sertões, dilataram as fronteiras nacionais no peito e na raça. Para os comunistas, ao revés, sempre cultivando a revolta, a insurgência das massas, a idéia da cordialidade cheirava a submissão, a conformismo, a conluio com as oligarquias. O tipo ideal deles era o Cavaleiro da Esperança exaltado por Jorge Amado, em edição de 1942, o herói a cavalo que, com pouca munição e muita coragem abalara fundo o agreste injusto e bárbaro, como fizera Luís Carlos Prestes com sua coluna rebelde. Mas assim era Sérgio Buarque, avesso aos extremos, sentia-se mais seguro nas sendas do liberalismo.